Nos últimos dias fiz um experimento meio estranho. Assisti ao episódio do Joe Rogan com o Elon Musk, e na sequência, voltei ao último episódio com o Bernie Sanders.
Dois mundos. Duas narrativas. Duas visões de futuro.
E uma sensação incômoda: eles estavam falando da mesma coisa, mas como se não estivessem. A ruína do contrato social que organiza nosso mundo.
Essa sensação não saiu da minha cabeça.
Elon Musk é o engenheiro do futuro.
Fala de quem vê o mundo em termos de sistema operacional. Para ele:
- A automação é inevitável, rápida e violenta.
- Quase tudo que é trabalho digital será varrido por IA.
- O trabalho vai se tornar opcional.
- Caminhamos para um cenário de abundância: produtos e serviços infinitamente acessíveis.
- O grande risco é sistêmico: IA fora de controle, estruturas críticas nas mãos de poucos, colapso de instituições.
É uma visão de futuro onde a tecnologia resolve quase tudo, e cria alguns riscos existenciais no meio do caminho.
Quando foi perguntado: “E o sentido da vida, quando ninguém mais precisar trabalhar?”, o Elon hesita. E admite não saber responder.
Bernie é o defensor do humano.
O Bernie, por outro lado, fala como quem olha para pessoas antes de olhar para gráficos. Para ele:
- A automação vai destruir milhões de empregos.
- Os primeiros atingidos serão motoristas, depois trabalhadores de escritório, depois quase todos.
- Renda básica sozinha não resolve nada se as pessoas perderem propósito.
- O trabalho é mais do que salário: é identidade, rotina, pertencimento.
- O risco não é só econômico, é emocional, psicológico e social.
Quando ele fala, dá pra sentir o medo por trás da análise, mas não é medo de robôs. É medo de pessoas que não fazem mais ideia de quem são.
E quando a conversa chega à mesma pergunta: “Quem seremos num mundo em que o trabalho não for mais o eixo da vida?”, ele também admite, não sabe.
Onde os dois se encontram (e que pode passar despercebido)
O que me intrigou foi isso: Elon e Bernie estão descrevendo o mesmo colapso por ângulos diferentes.
Um olha para o sistema. O outro olha para as pessoas.
Mas o que está ruindo, na verdade, é o contrato simbólico que organizou o mundo moderno: trabalho = identidade = lugar na sociedade.
Por séculos, responder “o que você faz?” tem sido quase o mesmo que responder “quem você é”.
“Sou médico.” “Sou engenheiro.” “Sou advogado.” “Sou empresário.”
O trabalho funcionou como eixo de narrativa. Ele diz em que história você esteve: qual seu papel, seu esforço, seu horizonte.
O que estamos pondo em risco não é só emprego. É o roteiro da vida que há séculos vem nos acompanhando.
E é por isso que a pergunta “quais profissões vão desaparecer?” é muito menos importante do que: “O que acontece com uma sociedade quando o principal eixo de identidade deixar de existir?”
Não é só sobre tecnologia. Nem só sobre política.
Quando o Elon fala em um futuro onde “as pessoas não vão mais precisar se preocupar com dinheiro”, ele não está apenas descrevendo abundância tecnológica. Dizer que:
- IA + robôs gerarão abundância
- bens e serviços serão extremamente baratos
- haverá “universal high income”
- as pessoas poderão “não se preocupar com dinheiro”
- mundos virtuais fornecerão propósito e atividades significativas
- o custo de vida poderá ser “quase zero”
É sugerir, implicitamente, uma tese radical: de que a escassez econômica poderia tornar-se irrelevante para o indivíduo médio.
Ele está, talvez sem perceber, apontando para algo muito mais profundo, que vai além da tecnologia, e avança sobre a transformação no próprio papel do dinheiro como coordenador da vida humana.
Von Mises nos ensinou que hoje o dinheiro faz quatro coisas fundamentais:
- coordena escolhas intertemporais (poupar vs consumir)
- sinaliza escassez (preços)
- disciplina incentivos (lucro e prejuízo)
- organiza relações sociais (funções, papéis, status, dignidade)
Se Elon está certo, o papel do dinheiro seria reduzido dramaticamente em pelo menos três desses quatro pontos.
Mas se formos fiéis às lentes de Mises: enquanto houver escassez, dinheiro é necessário. E a escassez nunca desaparece totalmente, nem mesmo no cenário de Musk.
Mas isso não quer dizer que o papel existencial do dinheiro não possa mudar.
O que pode acontecer (e é isso que Elon tateia sem formular) é: o dinheiro deixa de ser o “núcleo de sobrevivência” e passa a ser o núcleo de diferenciação, status, acesso, exclusividade e singularidade.
Ou seja:
- comida pode ser quase gratuita
- transporte pode ser quase gratuito
- energia pode ser quase gratuita
- bens duráveis podem ser quase gratuitos
Quando sobrevivência deixa de ser o centro da equação, o dinheiro migra para outro lugar: passa a comprar tempo humano, atenção, experiências únicas, acesso, reputação, autonomia, qualidade de ambiente, qualidade de instituições. Em um mundo de abundância material, a escassez se desloca para o simbólico e para o institucional.
Pois:
- localização não é gratuita, nem replicável: imóveis, localização, jurisdições, etc.
- tempo humano não é gratuito: mentoria, reputação, status, relações sociais, confiança.
- escassez simbólica não é gratuita: obras originais, arte, identidade, narrativa personalizada.
- experiências únicas não são gratuitas: concertos físicos, viagens reais, interação não mediada, cultura presencial.
- atenção não é gratuita: a “escassez última” é o tempo, e ele não escala com tecnologia.
- governança não é gratuita: ambientes de estabilidade jurídica e liberdade elevada.
- confiabilidade não é gratuita: seres humanos precisam de fricção para evoluir.
Elon vê abundância de bens, Mises veria a escassez deslocada para outros domínios. E o dinheiro continuará sendo o instrumento para navegar esse domínio de escassez residual.
Aqui nos deparamos com um outro problema: enquanto discutimos IA, automação e programas de renda, há décadas acontece uma erosão socioeconômica silenciosa. Falo aqui do valor do dinheiro e da qualidade das instituições.
Moedas que perdem poder de compra ano após ano. Governos e organizações que oferecem menos liberdade e mais dependência.
Quando o dinheiro deixa de ser um registro minimamente confiável de tempo, esforço e renúncia, o futuro deixa de ser um lugar em que vale a pena se projetar. E quando instituições deixam de sustentar autonomia e passam a mediar tudo por cima, o indivíduo perde margem para construir a própria trajetória.
O resultado é uma combinação explosiva: de um lado, tecnologia destruindo funções mais rápido do que conseguimos criar narrativas novas; de outro, sistemas econômicos e políticos que corroem a autonomia, empurrando as pessoas para uma posição passiva, subsidiada, gerida.
Nesse cenário, nem a promessa de abundância do Elon, nem a promessa de proteção do Bernie dão conta.
Porque a pergunta central deixou de ser: “Como as pessoas vão ganhar dinheiro?” ou “Como vamos distribuir renda?”
E virou outra, bem mais incômoda:
Como um indivíduo encontra uma história para viver quando o trabalho, o dinheiro e o próprio tempo perderam a antiga lógica que organizava a vida?